RENÚNCIA: UMA DAS MARCAS DE UM DISCÍPULO AUTÊNTICO
Texto-chave: “Senhor, eu te seguirei; mas…” (Lc 9.57-62).
I. INTRODUÇÃO
Para boa parte da enorme Igreja Evangélica no Brasil (mais de 30 milhões de pessoas), existe a ideia de que o discípulo de Jesus tem muitos DIREITOS. Quais DIREITOS? Direito à prosperidade econômico-financeira, direito à saúde para o corpo e à alma, direito à felicidade plena, e assim por diante. Já a doutrina bíblica na RENÚNCIA não recebe o mesmo destaque e nem é compartilhada com a mesma ênfase. Mas afinal, qual desses dois temas caracteriza o verdadeiro discípulo de Jesus? E como é possível, num mundo que defende a posse, de pessoas e de coisas, aperfeiçoar-se na bendita arte de renunciar? É o que veremos neste modesto estudo.
II. DEFINIÇÃO E NATUREZA DE RENÚNCIA
Nesta breve reflexão, os termos predominantes são “renunciar”, “rejeitar”, “abrir mão”. Os mesmos, de alguma maneira, estão associados a Hb 11.24, ou seja, aarneomai, que no grego do período do Novo Testamento quer dizer: “negar”, “renunciar”, “rejeitar”, “recusar reconhecer”, “desconhecer”.
A renúncia ou a recusa pode dar-se em situações opostas: 1) renunciar ou recusar aquilo que é mau/mal (sentido ético-moral-espiritual) e feio (sentido estético) ou, 2) aquilo que é bom, bem e belo. Na vida cristã, a renúncia ocorre nas duas situações. O fiel deve abrir mão do que NÃO É BOM/BEM NEM BELO diante do PAI – pensamentos, sentimentos, ensinos e comportamentos pecaminosos. Obviamente pode ser difícil renunciar os “pecados de estimação”, contudo não há relutância em reconhecer que são errados. O problema maior surge quando é preciso abrir mão do que não é necessariamente pecado. Nessa área a coisa se complica. E, por amor ao Evangelho, é preciso disposição também para abandonar até os privilégios, em determinados marcos temporal e geográfico.
III. A ARTE DE “VER O INVISÍVEL” COMO FORTALECIMENTO DA DECISÃO DE RENUNCIAR
O ato de renunciar está profundamente associado à visão do discípulo do Deus Pai, do Deus Filho e do Deus Espírito Santo. Moisés, mesmo vivendo ainda no período do Antigo Testamento, foi um mestre exemplar na arte de renunciar. Ele abriu mão de privilégios temporais e preferiu sofrer com o povo de Deus. Enquanto neto do faraó, tinha uma vida luxuosa, estabilidade econômico-financeira, popularidade e segurança. Mas Moisés, pela fé e com consciência, trocou os efêmeros tesouros do Egito pelo divino vitupério (vergonha), a ostentação do palácio pelas asperezas do deserto, a fartura do Nilo pela provisão de Deus, o luxo pelo lixo, o temporal pelo eterno, o perecível pelo duradouro… (Hb 11.24-27). Por quê? Uma das razões é porque ele “VIA O INVISÍVEL” (vs.26,27). “Ver” ou “olhar” nesses versos, como explica um especialista em Novo Testamento, vem dos termos gregos, apoblepein e aphoram, que significa “desviar o olhar de tudo a fim de fixá-lo numa só coisa”; é como se o olhar da alma se perdesse “em admiração, em amor e em louvor”. E quando nossa visão está fixa em Jesus, quando nós vemos o invisível, como Moisés, renunciar, de um terrível pesar, transformar-se em um glorioso prazer!!!
IV. COMO APERFEIÇOAR-SE NA ARTE DE RENUNCIAR
Se você deseja ser um autêntico discípulo de Jesus, precisa rejeitar a “mentalidade de direito”, presente em boa parte da Igreja Evangélica em nosso País e voltar-se à “mentalidade de renúncia” praticada e ensinada por Jesus. A mesma nos mostra como é possível evoluirmos na arte da renúncia. Confira:
1. A arte da renúncia depende de como nós calculamos o preço do discipulado. Em Lucas 9.57 Jesus ensina que o “discípulo impulsivo”, calcula mal o preço para segui-lo. No início confessa: “Seguir-te-ei para onde queres que fores”. Ele se oferece para seguir Jesus, mas a explosão de entusiasmo cessa diante dos custos. Nesse caso, o teste era o da pobreza (Lc 9.58), ou seja, do padrão de vida simples, sem grandezas materiais, sem extravagância, sem luxo (Lc 9.58). Quem aceita esse padrão de vida, marca vital do Reino de Deus?
2. A arte da renúncia envolve sacrifício. Em Lucas 9.59 Jesus ensina que o “seguidor relutante” é devagar para romper com aquilo que o cerca; seguir a Jesus não é prioridade absoluta, especialmente porque ELE exige que pensamentos, sentimentos e hábitos sejam mudados. Ora, quando há uma colisão de interesses, Jesus não pode ficar para depois; quem resiste pagar o preço da rendição absoluta está reprovado (Lc 9.60).
3. A arte da renúncia exige um amor sem rival. Em Lucas 9.61 Jesus ensina que o “voluntário do coração dividido” está sempre olhando para trás; ele diz “eu te seguirei, mas, porém, todavia, contudo…”; não corta vínculos com o passado; não derruba as pontes que levam-no para o outro lado, e por isso não avança. Já Eliseu, chamado para ser discípulo de Elias, deixou-nos uma lição singular: tomou a junta de boi, os matou, fez um churrasco, serviu-o ao povo, beijou os pais, se despediu e seguiu seu Mestre até o fim! (1 Rs 19.19-21).
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